A Indústria Têxtil e Vestuário (ITV) é uma das mais antigas e tradicionais indústrias portuguesas e mantém se como um dos maiores e mais importantes setores empresariais nacionais.
O objetivo deste artigo é apresentar uma visão geral da evolução desta indústria em Portugal, destacando os seus principais momentos históricos, desde as suas origens até a modernização atual bem como às exigências do mercado global.
Origens e Desenvolvimento Inicial
A produção têxtil em Portugal remonta à Idade Média, com o fabrico artesanal de tecidos de linho e lã. Os centros de produção estavam localizados principalmente no Minho, na Beira e no Alentejo, onde as condições climáticas e geográficas favoreciam a produção de fibras naturais. Durante os Descobrimentos, a produção têxtil ganhou importância estratégica, sendo exportada para colónias portuguesas e mercados europeus.
Industrialização no Século XIX
A origem da produção têxtil, em termos industriais, está intrinsecamente ligada à Revolução Industrial, que teve início no final do século XVIII, mas foi a partir da segunda metade do século XIX que a industrialização se desenvolveu, com a formação de muitas unidades de fiação, tecelagem, tinturaria, acabamentos, malhas, têxteis-lar, têxteis técnicos, cordoarias e confeções.
Com a Revolução Industrial, o setor têxtil sofreu uma transformação significativa. No século XIX, surgiram as primeiras fábricas mecanizadas, especialmente na região do Vale do Ave e do Vale do Câvado, tornando-se os principais polos industriais do setor. A introdução de máquinas a vapor e de novos processos de produção permitiu um crescimento exponencial da indústria, aumentando a produção e a qualidade dos tecidos.
Durante mais de 30 anos, o comércio de vestuário foi enquadrado a nível mundial por regimes especiais:
- Acordo de Curto Prazo: relativo ao Comércio Internacional de Têxteis de Algodão;
- Acordo de Longo Prazo: relativo ao Comércio Internacional de Têxteis de Algodão;
- Acordo Multifibras: que vigorou de 1974 a 1994, e que protegeu os interesses dos países industrializados contra a vaga de crescentes exportações dos países em vias de desenvolvimento.
Crescimento têxtil no Estado Novo
Durante o Estado Novo, a indústria têxtil beneficiou de políticas protecionistas que incentivaram a produção nacional. Com a abertura económica da segunda metade do século XX e a adesão à Comunidade Económica Europeia (atual União Europeia) em 1986, a indústria enfrentou novos desafios e oportunidades. As empresas portuguesas passaram a competir em mercados internacionais, investindo em modernização tecnológica e em design.
Neste contexto, a ITV portuguesa desenvolveu muito as suas atividades nas décadas de 70 e 80, mormente devido a:
- Custos de mão-de-obra comparativamente mais baixos;
- Proximidade de localização geográfica;
- Afinidade cultural.
Estes acontecimentos favoreceram a deslocalização dos meios de produção de outras partes da Europa (incluindo Portugal) onde os custos da mão-de-obra eram consideravelmente mais elevados.
Entrada da China na OMC
Em 1995, com a transformação institucional do GATT na OMC5, inverte-se a tendência protecionista registada no setor têxtil e vestuário, que se verificava até então.
Inicia-se o desmantelamento progressivo do Acordo Multifibras e a aplicação faseada do Acordo sobre Têxteis e Vestuário, que liberalizou o comércio internacional do têxtil e vestuário e levou à conclusão do processo de entrada da China na Organização Mundial do Comércio a 1 de janeiro de 2005, entre os países da OMC.
Acresce que a entrada da China na OMC, em 2001, agravou o desequilíbrio comercial na Europa, afetando negativamente as empresas nacionais. Além deste, outros fatores externos negativos, verificados entre 2001 e 2008, como a adesão de Portugal ao euro, o alargamento da União Europeia (UE) a Leste e a crise económica e financeira internacional, contribuíram para uma intensa contração da atividade das empresas do setor têxtil e vestuário.
Após um máximo histórico no volume de negócios em 2001, superior a 8 mil milhões de euros, o fim do período derrogatório do Acordo Multifibras teve efeitos dramáticos sobre o setor têxtil e vestuário, com uma redução significativa do volume de negócios e do emprego nos anos subsquentes.
Entretanto a indústria nacional reagiu, empreendendo novos rumos para a criação de valor acrescentado nas aplicações do têxtil e vestuário, o que se refletiu num aumento significativo das exportações em 2008, apesar do menor número de empresas e trabalhadores, obtendo-se, assim, ganhos de produtividade.
Atualidade do setor têxtil
A partir de 2015 o emprego voltou a crescer, invertendo uma longa tendência, desde 1995. Verificou-se, a partir de 2010, uma forte recuperação da atividade industrial, baseada na conjugação de diversos fatores, nomeadamente, o know-how industrial, a inovação tecnológica, o design, a qualidade, a rapidez e flexibilidade, a fiabilidade bem como recursos humanos mais especializados.
Atualmente, as empresas do setor dispõem de departamentos de I&D e áreas criativas, com designers têxteis e de moda para promover a inovação, colaborando com o sistema científico e tecnológico nacional - universidades e centros tecnológicos, de forma a possibilitar a transferência de conhecimento e de tecnologia para as empresas, mesmo trabalhando apenas em private label.
Conclusão
A indústria têxtil portuguesa percorreu um longo caminho desde os tempos medievais até a era da digitalização e da sustentabilidade. Hoje, é um setor dinâmico e inovador, que alia tradição e tecnologia, garantindo a sua relevância no mercado global.
No início do século XXI, a indústria têxtil portuguesa focou-se na inovação e na sustentabilidade para se diferenciar no mercado global. O setor investiu em têxteis técnicos, materiais recicláveis e processos de produção sustentáveis.
Hoje em dia, as empresas portuguesas destacam-se na moda sustentável e na produção de tecidos de alta qualidade, exportando para mercados exigentes como os Estados Unidos, França e Alemanha.